Ficção

Encontro com o Passado

Ted tem 64 anos de idade. Seu nome verdadeiro é Theodore, mas ninguém o chama assim. “Só minha mãe que me chamava de Theodore. Quando estava brava”. Pesa 98kg distribuídos em 1,70m de altura. Por obra de uma genética generosa, ele tem muita massa muscular e pouca gordura, o que faz com que ele aparente pesar bem menos. Seus cabelos são negros, da cor de seus olhos, e o bigode sempre impecável acompanha o tom.

Ted saiu da casa de seus pais bem jovem, pensando que assim encontraria a paz. Ele nunca se dera muito bem com o pai, e as coisas pioravam à medida em que ele ia se dando conta de que possivelmente o pai preferisse um filho “diferente” do que Ted poderia ser. Em outras palavras, Ted gostava de rapazes, e ele tinha certeza de que o pai reprovaria totalmente uma coisa dessas.

O pai de Ted, César, embora tivesse batizado o filho com nome americano era descendente de portugueses. Possuidor de uma personalidade forte, era bem conhecido por todos, e muito bem quisto pela honestidade evidente e pela franqueza. E César nunca escondeu o desconforto que sentia na proximidade de homossexuais. Certa vez, ao ouvir no noticiário a condenação de alguns jovens que espancaram um guei até a morte, ele disse claramente “essas aberrações têm mais é que morrer mesmo”. Essas palavras ecoavam na mente de Ted até hoje.

César faleceu quando Ted tinha 40 anos. Ele estava na Europa, a serviço da multinacional para quem trabalhava. Quando soube que o pai estava mal tratou de voar o mais rápido possível para casa, mas o esforço mostrou-se em vão: “sinto muito, Ted, mas o papai se foi há menos de meia hora”, disse-lhe a irmã. E nos últimos 24 anos ele mantinha no peito, embora não desejando, a mágoa e até mesmo culpa por ter sido impossível despedir-se do pai, fazendo-o saber do imenso amor filial que Ted nutria.

Aos 60 anos Ted resolveu que iria mudar o estilo de vida que levava, pois sentia-se vazio. Terminou o relacionamento de cinco anos com um rapaz que tinha pouco mais do que a metade de sua idade, mudou-se para o interior e deu a casa no bairro de classe média alta para a sobrinha recém casada morar com o marido. Passou a interessar-se por terapias alternativas, espiritualidade e outros assuntos que antes lhe causavam riso.
Ultimamente ele andava lendo umas teorias que diziam ser possível estar em dois lugares ao mesmo tempo, embora no segundo não se pudesse ter corpo físico. Também andou lendo sobre viagens no tempo, e resolveu unir o que conhecia sobre ambas as teorias, criando seu próprio método de viagem no tempo. Seu objetivo era poder consertar o passado, dizendo ao pai o quanto o amava, agradecendo pela oportunidade de ter nascido seu filho.

O método de Ted previa a recriação cuidadosa do ambiente para onde se gostaria de ser transportado. Tudo que pudesse lembrar aquela época seria fator de conexão com os registros sub ou inconscientes dos fatos daquela época. Depois, seria necessário alcançar um estado de transe que permitisse à mente superar os limites do corpo físico.

Após algumas semanas de preparação, Ted resolveu que era hora de tentar. Decorou um dos quartos de sua imensa casa com motivos da década de 80, a época a que gostaria de retornar, logo antes de o pai falecer, e gravou no computador um arquivo de som com sua própria voz conduzindo uma sessão de relaxamento e retorno no tempo. Programou o sistema para ficar reproduzindo continuamente o arquivo, deitou-se na cama macia e iniciou sua viagem. Após várias tentativas frustradas ele acabou sendo vencido pela exaustão, e deixou-se adormecer ao som das instruções gravadas com a própria voz.

Contudo, ao acordar-se no que ele cria ser o dia seguinte, uma surpresa: ele não estava mais em seu quarto confortável da sua casa de campo, e sim num quarto de hotel! “Seu Teodoro, são sete horas, e estou chamando como o senhor pediu ontem”, dizia uma voz quase infantil do outro lado da porta.

Ted estava assustado pela situação inesperada, mas ao mesmo tempo feliz porque aparentemente seu método funcionara, e triste porque ele estava numa época bem anterior aos anos oitenta que ele planejara. Ainda não sabia quando era, mas certamente lê descobriria isso em breve.

Ao sair do hotel perguntou ao jovem recepcionista que dia era, e este sem entender nada disse: “hoje é 15 de outubro de 1929, o dia que vai ficar na história por eu atender o hóspede mais estranho que esse hotel já viu”.
1929! Então, ele ainda não era nem nascido! Se além do tempo ele tivesse conseguido transportar-se para o lugar certo, então ele poderia encontrar o pai ainda jovem, o que talvez lhe desse a chance de entender melhor sua personalidade.

Fazendo um pouco de esforço lembrou que César sempre contava que havia começado a vida como estivador, e como era terça-feira talvez ele pudesse ser encontrado nas docas. Ted dirigiu-se para o cais sem nem entender como ele sabia o caminho, e lá chegando ficou maravilhado com a visão que se abria ante seus olhos: dezenas de rapazes jovens, musculosos, belos, másculos, do jeito que ele sempre apreciara. Logo sentiu a cueca ficar apertada pela excitação de ver os torsos suados, e as pernas fortes daqueles trabalhadores.

Caminhou um pouco pelo cais, e de repente pousou os olhos sobre um rapaz especialmente bonito, que sorria não só com os dentes, mas com os olhos e com o corpo todo. Ele parecia ter uma aura que iluminava tudo ao seu redor, o que realçava ainda mais seu corpo perfeito, seu tórax peludo e seus olhos negros.

Ted estava apaixonado por aquele rapaz. A sensação não era propriamente nova, mas já fazia muito que ele não a experimentava, e naquela intensidade, era certamente a primeira vez.

O rapaz ao ver Ted pulou do andaime em que estava e veio cumprimenta-lo. “Que bom que o senhor atendeu meu convite”, disse, “só não o esperava para tão cedo, contava com sua visita no fim da tarde”. Ted tentou dizer algo, mas não conseguia entender o que estava acontecendo. “Vou pedir ao meu patrão para me dar o dia de folga; direi que o senhor é um tio que veio de Portugal trazer-me notícias da família”, falou o rapaz já subindo novamente no andaime, e pulando pela janela do outro piso do depósito.

Minutos depois os dois já estavam juntos novamente, e o rapaz monopolizava a conversa, com suas piadas inteligentes, seu sorriso franco, os olhos de jabuticaba contrastando com a pele alva. Cerca de uma hora mais tarde os dois estavam no meio do parque, cercados de verde por todos os lados, e não havia mais assunto que conversar. Ted esquecera até mesmo o que estava fazendo ali, e só conseguia pensar no corpo perfeito de seu novo amigo, no quão agradável era sua companhia, e no quanto gostaria de poder abraçá-lo naquele momento.

Ted percebeu então que seus sentimentos eram correspondidos, pois o rapaz tentava sutilmente manter o dedo mínimo de sua destra tocando o mínimo da sinistra de Ted. Como ele sabia que o rapaz dificilmente teria condições de tomar a iniciativa, Ted pousou sua mão sobre a dele e olhando bem no fundo de seus olhos perguntou “por que você me trouxe aqui, o que você quer de mim?”. O rapaz corou, e confessou a Ted os seus sentimentos mais secretos: “eu gosto de homens, meu senhor; tenho uma noiva que me aprecia muito, nossas famílias fazem gosto deste casamento, mas eu gosto de homens, mas só dos maduros como o senhor”.

Ted abraçou seu novo amigo com toda a força que tinha, como se quisesse faze-lo entrar em seu peito, como se pudesse num abraço fundir os dois corações um só. Escorregou uma das mãos em direção à nuca do rapaz, e enfiou os dedos em seus cabelos macios. Gentilmente puxou sua cabeça para trás, e trocaram ali um delicioso beijo. O pênis de Ted estava novamente duro, como se fosse arrebentar a cueca que o continha.

Com paixão e lascívia Ted foi tirando a roupa do estivador, e ao ver nu o peito jovem, peludo e musculoso beijou e lambeu toda a sua extensão, de uma a outra axila, com especial dedicação aos mamilos. Escorregou a mão até entre as pernas do seu amante, e encontrou um pênis duro como rocha. Desamarrou o cordão da calça, e tocou aquele falo quente, ornado por uma mata de pêlos negros brilhantes, e por dois testículos generosos, que pediam para ser beijados.

Afastou-se do rapaz por um momento para apreciar aquele corpo jovem e belo, que estava totalmente ao seu dispor, numa entrega silenciosa e cúmplice. Pelo olhar do jovem ele entendeu que seria de sua apreciação que ambos estivessem nus, e assim Ted foi tirando uma por uma de suas roupas.

O jovem então ajoelhou-se, e com dificuldade e gosto foi colocando a verga de Ted na boca. Com carinho ele mamava a glande, enquanto massageava o escroto do amante. Ted estava nas nuvens, e resolveu voltar para retribuir o carinho. Engoliu o mastro do estivador, apertou seus ovos, e fez dois ou três movimentos de vaivém, fazendo o rapaz explodir num gozo quase instantâneo, tão abundante que Ted quase engasgou. “Engraçado”, pensou Ted, “durante toda minha vida nunca ninguém gozou na minha boca, e agora isso acontece, e eu aprecio”.

O rapaz tentou desculpar-se pela falta de controle, mas foi calado por mais um beijo ardente. Ato contínuo Ted virou seu amante de bruços e beijou desde a nuca até os pés, fazendo-o gemer de prazer. “Por favor, faça…” foram as únicas palavras do jovem, e Ted entendeu o seu desejo. Com jeito separou as nádegas, e com sua hábil língua foi relaxando o esfíncter anal que em breve seria deflorado. Com paciência e volúpia Ted acabou por possuir o corpo daquele rapaz do passado, de um tempo, em que Ted nem era ainda nascido, tendo por testemunha apenas o sol a pino e a densa vegetação ao redor.

Ted tinha seu objeto de paixão deitado sobre seu peito largo. Estavam abraçados havia horas. Foi o rapaz quem quebrou o silêncio perguntando o nome daquele que o deflorara. “Theodore, com ‘th’ e ‘e’ no final”. “O meu é César”.

Estas palavras fizeram Ted lembrar-se do que o levara àquela situação, mas sabia que estava muito antecipado no tempo. Abraçou mais forte o estivador, dizendo que o amaria para sempre. “Eu também, Theodore, mas apesar disso vou cumprir as convenções e casar com minha noiva. A propósito, está tarde, e eu tenho de ir”. Disse isso e vestiu-se apressado. Com um imenso sorriso nos lábios arrematou: “foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, nunca vou esquecer disso”.

Ted permaneceu sentado sobre as próprias roupas, vendo o rapaz afastar-se. Tinha certeza de que nunca mais o veria. Seus pensamentos só foram interrompidos pela voz do jovem dizendo: “Theodore, quando eu tiver um filho, ele vai ter esse seu nome estranho; se encontrar outro Theodore pergunte se ele é filho de César, se for é em homenagem a você e ao nosso amor”.

César sumiu entre as folhagens, e a vista de Ted escureceu. Acordou com a voz de sua sobrinha: “Tio Ted, o caseiro falou que o senhor estava aqui dentro há três dias, e a gente teve de arrombar a porta pra te resgatar… E eu desliguei o PC, pois aquela gravação estava muito irritante”.

Ted acabou sem saber se aquela experiência foi mesmo uma viagem no tempo ou se foi apenas um sonho muito intenso. Muitas perguntas permaneceram sem resposta. E disto tudo apenas uma certeza, a de que Fernando Pessoa tinha razão: “valeu a pena? Tudo vale a pena, se a alma não é pequena. Quem quer ir além do Bojador tem de ir além da própria dor. Deus ao mar perigos e abismos deu, mas foi nele que espelhou o céu”.

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