Ficção

O Italiano

035__image_g3— Acchille, com dois C, H e dois L. Pronuncia Aquile. Não tem S no final.

O ano era 1996, e eu estava instalando um software que havia projetado, em um cliente de teste. Era para controle de hotéis e pousadas, e para entender como meu cliente trabalhava acabei ficando por alguns minutos no balcão, registrando as operações de check-in dos hóspedes. Sorte minha.

Acchille era descendente direto de italianos, mas parecia mais germânico: loiro, calvo, barba grisalha bem aparada, sobrancelhas espessas, rosto rosado; pela abertura da camisa eu podia ver seu peito coberto de pêlos loiros e macios; tinha braços que pareciam umas toras de tão fortes, combinando graciosamente com sua barriga saliente; e tudo isso proporcional com bunda e pernas, claro.

— Desculpe o atraso no check-in, é que o funcionário responsável deu uma saída, e eu…

— Então você é o irresponsável. Não lhe dou uma palavra mais, se não tem competência para efetuar meu registro. Onde fica a caixa de reclamações?

Definitivamente, o sujeito não estava a fim de conversa, e pelo mau humor deveria estar no maior atraso, pensava eu. Assim que o funcionário do hotel voltou ao posto saí de onde estava, e encaminhei-me ao apartamento em que me hospedara, durante o processo de implantação do sistema. Acchille ficou com cara de besta, sem entender o que estava acontecendo, mas não fiquei mais por ali. Queria mesmo era terminar meu trabalho para poder voltar para casa, afinal eu era noivo e estava com casamento marcado.

Como o trabalho estava bem adiantado resolvi pôr um calção e aproveitar um pouco a piscina do hotel. Quando abri a porta vi que o italiano estava recém entrando em seu apartamento, que calhava de ser exatamente ao lado do meu. O jovem que carregava as malas me cumprimentou, alegre, mas o coroa nem me olhava. Aliás, eu era muito querido de todos os funcionários do hotel, pois tratava todos com igual carinho e simpatia, pouco me importando se eu ganhava numa semana o que eles precisavam de três meses para juntar.

Cheguei na piscina, nadei por alguns minutos, e sentei numa cadeira à sombra. Passei a mão num jornal e acabei cochilando ali mesmo, sendo acordado pelo vozeirão de Acchille.

— Ma che porco hotel é questo, que os serviçais usam a área de lazer destinada aos hóspedes?

Eu sabia do que ele estava falando, ou melhor, de quem. Mas onde estava permaneci, até que ele enfurecido foi chamar o gerente — na verdade o filho do dono do hotel. Ao ver que o “problema” era eu o rapaz apenas riu, e tentou explicar que eu não era funcionário, e sim hóspede do hotel, devido ao trabalho que prestava, mas Acchille foi apenas ficando cada vez mais irritado. Como minha vontade era de meter a mão na cara dele, mas isso não faria em respeito a meu cliente, acabei pedindo licença a meu amigo e fui para a sauna. Cerca de meia hora depois, eis que vejo aquele vulto gordinho, rasgando o vapor com passadas firmes, e estava novamente eu de cara com o hóspede rabugento. Contudo, devido ao calor e à pouca iluminação, ele não reconheceu de cara que era eu que estava lá, e veio puxando papo.

— “Imazine” só: quando “ceguei” no hotel tinha um funcionário que não sabia nem “rezistrar” o hóspede no computador, e me ofendeu no primeiro minuto; depois vou eu pra piscina, e quem estava lá? O folgado, parece que de propósito na cadeira ao lado da minha, como se fosse “zente”!

— O que ele lhe disse que ofendeu tanto? — perguntei disfarçando a voz e a ira. Claro, ele não deu resposta alguma.

cheeksDeixei que ele falasse um pouco, o suficiente para o sangue subir à minha cabeça, cozinhando meus miolos e fazendo meu juízo evaporar.

— Acchille, você é um grosso, ignorante, prepotente e imbecil. Julga as pessoas pelo que acha que elas têm, e não pelo que elas são. Provavelmente você não é merda nenhuma, e só consegue conquistar algum respeito devido ao que tem e ao que gasta nos lugares por onde passa. Tenho nojo de gente assim, sabia?

Quando ele se deu conta que estava falando comigo ficou totalmente transtornado, ora xingava, ora pedia desculpas pelo mal entendido, e a cena patética culminou nele passando mal, devido à emoção associada ao calor da sauna. Eu não sabia o que fazer, e só me ocorreu tomar o cara nos meus braços e levá-lo para a uma área mais arejada. Na verdade eu estava morrendo de medo que o cara morresse, e acabassem pensando que eu o tivesse matado. Telefonei para a recepção e pedi primeiros socorros, sem dizer o que tinha acontecido ou para quem era.

Quando o paramédico chegou, segundos depois, o coroa estava sufocando. Mas com habilidade o profissional fez com que ele voltasse a respirar normalmente, ficando mesmo um grande susto.

— Alfredo, que bom que você teve presença de espírito de tirar o nosso amigo da sauna e me chamar. Mais um minuto e teria sido bem mais do que um simples susto. A propósito, alguém pode me explicar o que aconteceu, que levou a tal situação?

Gelei.

— A “zente” estava conversando, quando eu comecei a passar mal. Fico muito “emoxionado” quando falo de futebol, e meu time não anda numa grande fase.

— Por que mentiu, Acchille? — perguntei quando o paramédico saiu.

— Por que você salvou minha vida, e ninguém precisa saber que “nói” discutimos sobre minha personalidade.

— A propósito, me desculpe a grosseria. Fiquei condenando a sua, mas agi igual a você, tão irredutível e mal educado quanto.

E o homem começou a chorar. Chorava feito uma criança, tingindo de vermelho aqueles olhos verdes tão lindos. A casca de rabugice estava quebrada, e o que se mostrava era fragilidade e sentimentos.

— Alfredo, eu tenho 52 anos de idade, e desde os 20 vivo com uma mulher, a mãe dos meus filhos; eu tenho um sócio, que era como um irmão “per me”, ou como um pai. Quando cheguei em São Paulo, com menos de 18, foi ele quem me ajudou a sobreviver, me ensinou a andar pela cidade, a reconhecer os perigos; quando casei ele foi meu padrinho de casamento, e quando meu “primo” filho nasceu, ele se tornou meu compadre. Ele e minha esposa eram as pessoas em que eu mais confiava na vida, até que… — e irrompeu novamente em soluços incontroláveis.

Instintivamente aproximei-me dele, envolvendo-o num abraço, mas senti que não havia receptividade. Mas o toque daquela pele macia e peluda me agradava, e o perfume que ele exalava, amadeirado, me embriagava.

— Desculpe, Alfredo, — disse ele um pouquinho mais calmo — eu não tenho o direito de estragar o seu fim de semana com os meus lamentos.

— Acchille, se você confiou em mim para contar até este ponto, por favor fale o resto; não que eu esteja curioso ou me importe com sua privacidade, mas sim porque se o fizer estará dando vazão à mágoa, e você só recobrará o raciocínio depois que se livrar disso.

— Alfredo, eu confiava nos “due” cegamente, até que um dia cheguei em casa mais cedo, e peguei os dois na cama, fodendo. Ela dava o cu pra ele, e gritava feito uma cadela no cio, dizendo coisas contra minha pessoa. Dizia que tinha nojo de mim, que só gostava de trepar com ele, que eu nunca tinha nem pedido pra comer o cu dela, e que provavelmente nem desconfiava que criava um filho de outro.

— Continue, Acchille, ponha pra fora toda essa mágoa, diga tudo o que está sentindo.

— “Qüela vadzia”, nunca respeitou nosso casamento! Ela me traía esses anos todos, e por fim conseguiu fazer com que eu criasse reservas contra quem mais amo na vida, meus filhos…

older4me_now_hiringEstava explicada a agressividade toda do coroa, que eu já via com outros olhos.

— Por isto, Alfredo, que eu vim parar aqui, na esperança de descansar a mente, e decidir o que fazer. Estive pensando até em fazer uma “bobaze”.

Deixei que ele chorasse o quanto quis, até recobrar consciência suficiente para pensar.

— Acchille, um homem bonito como você, logo arranja outro relacionamento, com quem quiser. Toque sua vida em frente, e deixe os dois, eles se merecem. Não há motivo para tanta tristeza, embora o ultraje seja imenso.

— Você me acha bonito, Alfredo?

— Sim, acho.

— Então me “beza” agora.

— Acchille, eu vou casar daqui a três meses, eu… eu…

— Não casa, olha o que aconteceu comigo, na “mia vita”. Me “beza”.

Meu coração disparou, a boca secou, as mãos ficaram autônomas, e tomado de culpa e desejo acabei encostando meus lábios nos do coroa, que me envolveu em seus braços fortes e enfiou a língua na minha boca, em princípio me assustando, em seguida me excitando.

— Quantos “anni tu sei”, Alfredo?

— Vinte e dois… — respondi semi-inconsciente.

— “Porco zio, trinta anni” mais novo que eu… — disse voltando a me beijar.

Confesso que estava adorando aquela situação, estava adorando ficar ofegante nos braços daquele urso forte e peludo. Mas estava nervoso, tinha medo de sermos descobertos, medo do que aconteceria, medo daquele tesão muito mais forte do que eu jamais tinha sentido antes por minha noiva.

— Vamos pro quarto, Alfredo.

Lá chegando mal fechamos a porta e voltamos a nos beijar freneticamente. Não havia muita roupa para tirar, e em segundos estávamos livres de nossos calções. Passei a mão, então, pelas costas do italiano, até chegar na bunda. Nunca tinha sentido uma bunda de macho antes, carnuda, musculosa, firme, redonda e peluda. Afastei-me dele, e olhei para ele de frente, ambos nus, ambos de paus duros, o meu bem maior que o dele, ele a cada segundo mais apetitoso.

— Me “supa”, Alfredo.

— Eu nunca fiz isso, eu não sei, eu…

— Me “supa”, eu te ensino.

seenyamix12Caí de boca naquele cacete pequeno e lindo, quase tendo um orgasmo ao sentir a textura do prepúcio na língua. Ele gemia como se fosse o melhor momento de sua vida, creio que mais para me deixar à vontade.

— Acchille, me come… Quero dar pra você…

O italiano não se fez de rogado, jogou-me na cama de bruços, e começou a beijar meu pescoço, minhas costas, roçava a barba, me apertava, até chegar em minha bunda. Separou as nádegas com as mãos e meteu a língua no meu cu, arrancando-me urros de prazer. Lambeu e chupou até cansar, e então posicionou-se para a consumação do ato. Encostou a glande em meu esfíncter, e ficou pressionando com calma e ritmo, até que eu não agüentei mais e joguei meu corpo contra o dele, fazendo o cacete alojar-se todo dentro de mim. Reitero que não era grande, mas para meu cu virgem a dor era quase insuportável.

Enquanto me fodia cadenciadamente Acchille dizia coisas que eu não compreendia, bandalheiras em Italiano, em Português, e eu adorando a sensação de dar prazer a um homem. Depois do que me pareceu a tarde inteira metendo de quatro, ele acelerou as estocadas, e no instante de gozar sacou o pau fora, espirrando um jato de porra que foi quase no meu cangote, caindo desfalecido ao meu lado.

— “Non” te preocupa, bambino. “Non” vou te deixar na mão.

Disse isso e me fez deitar em seu peito, enquanto ele me apertava e acariciava. Descansou por alguns minutos, e então retribuiu tudo que eu havia feito com ele: começou chupando-me o caralho, as bolas, e por fim deitou-me na cama, e sentou sobre meu pau duro. Tive medo de ejacular antes da hora, e retraí-me um pouco, o que permitiu prolongar um pouco a transa.

— Que cazzo mais enorme, vai me rasgar “tudo” o cu…

Posicionou-se de quatro, e então eu comecei a foder aquele cuzinho apertado, lindo, escondido entre aquelas nádegas musculosas e firmes. Não foram muitas estocadas e eu estava inundando o reto de Acchille com meu leite armazenado por dias.

Tomamos um banho, e dormimos o resto da tarde e toda a noite juntos. De vez em quando acordávamos e trocávamos uns beijos, e transamos mais duas vezes até o amanhecer. Fiquei todo dolorido, mas totalmente feliz. Jamais voltei a sentir tamanha alegria desde então.

Logo terminei o trabalho que prestava no hotel, e terminei também com meu noivado. Confuso, fui procurar terapia para entender minha sexualidade, e tentar esquecer o Acchille. Não consegui, e voltei ao hotel. Pedi a meu amigo acesso às fichas dos hóspedes, e misteriosamente não encontrei o cadastro dele. Vasculhei a lista telefônica, associações comerciais, cadastros de outros clientes meus, e nunca mais encontrei aquele italiano invocado que decidiu o rumo que eu viria a dar à minha vida.

Obrigado, Acchille, esteja onde estiver.

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