Ficção

Sérgio e Heitor

chuck-002Sérgio tinha pouco menos de trinta anos quando perdeu sua razão de viver, Gilberto, que tinha poucos meses de idade a mais. Foi-lhe verdadeiramente difícil aceitar a perda, tanto pela maneira estúpida como o outro se fora, quanto pelo fato de Gilberto estar na estrada àquela noite indo resolver um assunto pendente de Sérgio, em outra cidade. Isto criou nele um previsível sentimento de culpa que o fez mal sair de casa durante muito tempo, nem mesmo para trabalhar.

Um dia, contudo, a culpa principiou a cessar, e Sérgio passou a procurar alternativas para seus dias de tristeza e solidão depressiva. Acabou então juntando-se a uma ONG que se ocupava de mandar pessoas a hospitais, asilos e orfanatos para cuidar da aparência dos internos. Nos lugares onde os internos tinham poder aquisitivo eles colhiam donativos que eram distribuídos nas instituições mais necessitadas.

Sérgio não tinha grandes habilidades manuais, mas gostava de cortar as unhas dos velhinhos que já não tinham mais flexibilidade para cuidarem dedicadamente dos próprios pés. Nos dias de teatro infantil no orfanato seu “trabalho” era ficar sentado no chão, no meio das crianças, acolhendo no colo tantas quantas fosse possível, e tomando o cuidado para não dar colo a uma mesma criança novamente antes que todas tivessem tido oportunidade.

Dessa forma, dando de si aos necessitados, Sérgio foi recobrando alegria de viver, mas embora a juventude e a saúde que tinha, sua vida sexual estava absolutamente parada desde o falecimento de Gilberto.

Um dia Sérgio foi convidado a ir a um outro hospital, diferente dos que lhe eram habituais. Ele não poderia imaginar o quanto esse convite estava prestes a mudar a sua vida.

A equipe foi encaminhada aos quartos e leitos onde os doentes precisavam de cuidados, e então ocorreu o encontro entre Sérgio e Heitor.

seamlesslySérgio não reconheceu a si mesmo quando pousou os olhos sobre aquele homem de meia idade que jazia sobre aquela cama. O coração disparou, a boca secou, as pernas ficaram moles. Ficou paralisado por uns segundos, sem entender o que estava acontecendo, sendo tirado de seu transe pela enfermeira. “Não deixe que o jeito rude do Heitor te afugente; ele é um dos que mais precisam de carinho aqui, embora a tendência a repelir as pessoas.”

Sérgio aproximou-se do leito onde Heitor estava, e tentando disfarçar o nervosismo buscou seu melhor sorriso das profundezas da alma.

— Como vai, amigo? Permite-me dar uma ajeitada nas suas unhas…

— Vá embora, seu crente cretino — interrompeu Heitor. — A última coisa que preciso é de um crente hipócrita que venha me usar para sentir-se bem ante suas próprias merdas.

Atordoado pela rispidez de Heitor, Sérgio não pensou, respondendo por impulso.

— Deixe de ser pretensioso. Só estava tentando ser gentil, mas meu real objetivo aqui é evitar que você continue furando os lençóis com os cascos.

— “Você” não, moleque. Pra você eu sou senhor, Senhor Heitor.

— O prazer é seu, Heitor. Meu nome é Sérgio. E “senhor” é só meu pai. Agora com licença, vou aparar suas unhas.

Sérgio estava com muita raiva de Heitor, pela maneira como o estava tratando. Mas apesar disso havia uma curiosidade muito grande, e de alguma forma ele achava que via por trás daquele cinismo todo uma camada de candura escondida.

Ao descobrir os pés de Heitor, não pode segurar a curiosidade e o pensamento: Heitor tinha pés bonitos e macios, o que denunciava que ele já estava fazia um bom tempo de cama. As unhas realmente estavam crescidas, mas brevemente estariam bonitas e cuidadas, compatíveis com aqueles pés bonitos do coroa.

16430481“Mas o que é isso comigo? Agora dei pra achar ‘velho’ bonito?”

— Heitor, há quanto tempo você está aqui?

— Por que quer saber?

— Nada, apenas achei seus pés meio fragilizados, sinal de quem não tem caminhado muito recentemente.

Terminou de aparar as unhas e resolveu lixá-las também, embora não fosse hábito fazer isso. Demorou-se mais do que o normal nessa atividade também. Embora não gostasse do silêncio achava melhor estarem ambos calados do que ser escorraçado pelo ‘velho’ sobre a cama.

A supervisora da equipe apareceu então na porta do quarto, perguntando se estava tudo bem, pois fazia horas que Sérgio estava com um único paciente, e o restante da equipe estava pronto para ir embora.

— Podem ir. Depois eu tomo um ônibus e vou pra casa, já que moro aqui perto.

Pegou um gel refrescante e começou a massagear os pés macios do doente. Ergueu um pouco mais o lençol e então pode vislumbrar os pêlos que cobriam as pernas de Heitor.

“Foram pernas fortes, ainda têm um bom porte. Este cara deve ter sido atleta.”

— São pernas fortes ainda — disse Heitor como se lesse os pensamentos do jovem — que não me deixam esquecer as glórias do passado.

— E que passado é este, Heitor?

— Quem se importa, crente?

— Eu me importo, embora prefira pensar mais no presente e no futuro. E não sou crente. Sou quase ateu, mas não deixe minha supervisora saber disso.

— É mesmo? — perguntou Heitor com ar surpreso.

— É. Resolvi juntar-me ao voluntariado para superar um trauma recente do passado, mas acabei gostando, e por isto estou aqui.

— Ai, cuidado, não tão forte! Há anos que não recebia uma massagem nos pés… Isso, assim… Ah, meu Deus, que delícia…

Sérgio terminou a massagem, despediu-se e foi para casa. Durante o curto trajeto do ônibus ficou reconstruindo mentalmente o encontro com Heitor, e fantasiando como poderia ter sido diferente. Chegou em casa, deitou-se no sofá e ficou recriando a imagem do novo conhecido mentalmente.

“Preciso olhar mais nos olhos dele, não sei nem de que cor são.”

No dia seguinte Sérgio não foi para a sede do voluntariado. Voltou para o hospital, e inventou uma desculpa qualquer, como ter esquecido algo, e foi para o quarto de Heitor.

— Minhas unhas não cresceram ainda, crente. Eu não sou uma aberração mutante.

— Não vim por suas unhas, vim por seus olhos. Não lembrava qual era a cor deles.

— Não tem vergonha de passar uma cantada tão podre como essa num velho acamado?

— Bem, agora já vi que seus olhos são verdes, vou embora.

— Se quiser ficar, pode fazer outra massagem em meus pés. Por favor…

Sérgio não acreditava no que estava ouvindo, tampouco entendia a alegria que sentia por poder ficar mais um pouco com aquele coroa ranzinza. Aproveitou para analisar melhor a aparência dele, tentando entender o que o atraía tanto.

Heitor tinha sido um homem muito forte, trabalhador braçal, atleta, corredor, jogador de futebol. Ainda tinha as coxas volumosas e firmes, e um peitoral definido, embora a barriga meio crescida. Os braços também eram fortes, embora se notassem sinais de flacidez, que mais tarde ele soube que era devido ao emagrecimento muito acelerado.

— Muita gente pensa que eu tenho AIDS, porque comecei a emagrecer muito rápido, por causa das diarréias e por causa do sangue na minha tosse. Quem dera fosse, crente, pelo menos teria tratamento. Mas o que eu tenho é mesotelioma da pleura.

412bSérgio não podia crer no que estava ouvindo. Sabia bem o que era mesotelioma, uma espécie de câncer fatal causada pela exposição a asbestos, uma fibra mineral utilizada na fabricação de aparatos não comburentes, e também em telhas de fibrocimento. A expectativa em tais casos é de cerca de seis meses até o óbito. Estava explicada a rabugice de Heitor.

— Pelo menos você tem tempo para se preparar, tanto quanto as pessoas que o amam — emendou Sérgio, aproveitando o mote para contar de Gilberto.

— Eu sabia que você era gay, crente. Meu boiolômetro nunca me engana.

— Boiolômetro infalível é característica de boiola, amiga!

Pela primeira vez Heitor estava sorrindo, mostrando-se outra vez irresistível para Sérgio.

Os dias foram passando, e Sérgio abandonou de vez o voluntariado. Contudo, ia todos os dias ao hospital conversar com Heitor, eventualmente aparar e lixar suas unhas dos pés e das mãos, e todo dia fazer-lhe uma massagem nos pés.

— Heitor, eu entendo que você precise da medicação que estão ministrando, e que não possa fazer esforços, mas vou pedir ao seu médico se você pode dar um passeio. Ficar aqui nesse hospital trancado é deprimente até mesmo para uma bicha rabugenta como você.

Assim fez. No dia seguinte Sérgio apareceu com uma calça de moletom, uma camiseta e um casaco leve para seu amigo, e uma camiseta preta da banda Dream Theater.

— Pô, crente, eu nunca te disse que acho rock progressivo uma merda?

— Azar o seu. Era a única que eu tinha que poderia te servir.

— Não trouxe um boné e óculos escuros?

— Não. Teus cabelos grisalhos são muito bonitos para ficarem sob um boné. E estes olhos verdes têm que ver o mundo em todas suas cores e brilho.

— Então tranca a porta, não quero ser interrompido pela enfermeira enquanto eu me troco.

Sérgio fechou a porta e ficou observando o amigo tirando as roupas do hospital, para vestir as roupas de garotão que um dia foram de Gilberto. Com vagar e dificuldade Heitor deixou todo seu corpanzil fragilizado aos olhos do ex-voluntário. De repente sentou à beira da cama, nu, despertando a preocupação de Sérgio, que saltou de onde estava para acudir o amigo num abraço.

Heitor então abraçou o corpo de Sérgio, que não era propriamente um homem grande. Os rostos colados pela face esquerda, as mãos do rapaz movendo-se suavemente sobre os pêlos macios das costas de Heitor, as mãos de Heitor enfiando-se pelo cós da calça do rapaz.

Sem dizerem uma palavra os rostos foram se movendo, as bocas se encontrando. Sérgio segurava agora o rosto de Heitor com uma mão, com a outra afagava seus cabelos grisalhos. Heitor jogou-se de costas na cama e Sérgio não conteve a curiosidade e encheu os olhos com a visão do pênis de Heitor repousando sobre o escroto volumoso entre as coxas grossas.

Sérgio removeu rapidamente suas roupas e retomou o beijo com o coroa, e depois foi descendo pelo pescoço sem tirar os lábios da pele de Heitor. Beijou-lhe o peito, sugou gentilmente os mamilos, e desceu rumo ao ventre. Chegando próximo ao falo, a esta altura meia-bomba, lambeu-lhe as virilhas e os testículos, rumando para as pernas de Heitor.

— Sérgio, que loucura estamos fazendo… Mas não pare agora…

O jovem, esquecido do ambiente em que estavam, mas tranqüilo por ter ele próprio chaveado a porta, continuou seu ritual de lascívia misturada com paixão, mas desta vez enchendo a boca com o falo duro de Heitor. Sugava a glande enquanto massageava o corpo do pênis com uma mão e com a outra espremia suavemente um dos mamilos, massageava o peito do ex-jogador.

— Sérgio, eu quero te comer… Por favor…

— Deixe que eu cuido disso. Você não deve fazer esforços.

Continuou chupando o falo que se avolumava ainda mais sobre sua língua ávida. Quando sentiu que Heitor estava prestes a explodir num orgasmo lembrou que não tinha um preservativo consigo, mas também não queria perder a chance por nada deste mundo. Passou saliva no traseiro, e foi sentando no pinto túrgido do coroa. Devido ao tamanho avantajado e à falta de prática a penetração não foi fácil. Mas em poucas bombadas Heitor já estava inundando as entranhas de Sérgio com seu leite represado por meses.

Ficaram por alguns minutos abraçados, esquecidos do futuro muito curto que o mesotelioma lhes reservava. Sérgio ajudou Heitor a vestir as roupas que trouxera, e levou-o para sua casa, onde tiveram mais uma sessão de sexo tão selvagem quanto era possível para Heitor.

Na semana seguinte Heitor pediu alta do hospital, mudando-se para a casa de Sérgio, que alegremente aceitou o desafio de tomar conta do amigo, ministrando-lhe a medicação nas horas certas, cuidando de sua alimentação, e, claro, massageando-lhe os pés todas as noites antes de irem para a cama.

Contrariando todas as expectativas, Heitor viveu não seis meses como a literatura médica previa, mas um ano e quatro meses, vindo a deixar esta vida numa tarde fria de agosto.

–– A gente deveria ter se preparado, meu amor –— foram suas últimas palavras, antes de Sérgio sentir o espírito de Heitor abandonando o corpo que não lhe servia mais.

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Obrigado, Jamboree, pela inspiração. Considere este humilde texto como uma homenagem à sua genialidade.

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