Tio Cláudio
Nasci em uma família de moldes tradicionais, de moral judaico-cristã, que tinha como peculiaridade o fato de ser ausente. Se hoje condenam-me por não visitar pais e tios, creio que isso seja meramente um reflexo de como fui criado.
Fui precoce em muitos aspectos, como aprender a usar e a programar computadores sozinho antes dos 14 anos de idade (na época em que esses aparelhos custavam muitos milhares de dólares, devido à reserva de mercado), ou aprender eletrônica apenas lendo e pesquisando livros e revistas. Mas no que diz respeito a relacionamentos amorosos e sexuais, tive uma iniciação tardia, bem mais tardia do que seria normal em nossa cultura.
Eu tinha 21 anos, e era um jovem deprimido, frustrado, pois sabia que era homossexual, e sentia-me culpado por isso. Mais ainda, sentia-me culpado por não gostar de jovens, e sim de homens maduros, gordos, calvos, enfim, bem distantes do padrão de beleza comercial corrente. Se entre os heterossexuais eu era rechaçado por ser gay, entre os gays eu era rechaçado por gostar de “velhos”.
Há quinze anos eu saía de uma péssima temporada de dois anos servindo no Exército. Eu odiava aquilo tudo, principalmente pela disciplina hipócrita que era imposta, e também pelas privações a que submetiam os recrutas e soldados. Sem falar, claro, nas humilhações. Estas eram o pior preço que se pagava por ser brasileiro vivendo a melhor fase da vida confinado a um antro de mentira e prepotência. Claro que há quem goste, e longe de mim fazer qualquer julgamento; apenas quero manter distância até mesmo das recordações daquela época.
O ano não sei bem, mas já fazia um tempo que eu tinha sido mandado embora do exército. Disseram que eu tinha sofrido um acidente e ficado com problema de coluna, mas isso foi só pra meu pai, digo, meu padrasto, não se chatear comigo. Ele tinha muito orgulho de seu “filho” de criação ter servido exército, e queria muito que eu seguisse carreira. Se ele soubesse que o real motivo de eu ter sido expulso das tropas era eu ser fraco e medroso, chegando a provocar detenções diariamente apenas para não precisar integrar-me aos outros milicos, ele se decepcionaria muito, e ninguém precisava disso.