Estranho Prazer
Há quinze anos eu saía de uma péssima temporada de dois anos servindo no Exército. Eu odiava aquilo tudo, principalmente pela disciplina hipócrita que era imposta, e também pelas privações a que submetiam os recrutas e soldados. Sem falar, claro, nas humilhações. Estas eram o pior preço que se pagava por ser brasileiro vivendo a melhor fase da vida confinado a um antro de mentira e prepotência. Claro que há quem goste, e longe de mim fazer qualquer julgamento; apenas quero manter distância até mesmo das recordações daquela época.
Como tudo na vida é relativo, a melhor lembrança daquela fase no início da minha terceira década de vida também diz respeito às Forças Armadas: o dia da baixa. Senti-me o homem mais feliz do mundo, o mais livre, sentia-me forte, eufórico, como imagino ficaria o King Kong se cheirasse algum pozinho do diabo.
Meu primeiro emprego depois do exército foi um remendo até encontrar algo na minha área (Eletrônica, na época): encarei um estágio no extinto Banco Meridional. E foi lá que começou uma história que só se completaria uma década e meia depois.
Na agência em que eu trabalhava havia muitos funcionários e estagiários; além disso havia as empresas terceirizadas, que cuidavam da segurança e da zeladoria (limpeza) do prédio. Um dos vigias era o Alceu, na época com uns 37 anos, cerca de 1,65m e uns 70kg. Ostentava um bigode bem cuidado, preto, combinando com a cor de seus olhos, que contrastavam com a brancura de sua pele. Cabelo ele tinha, mas estava começando a rarear, o que se percebia com mais ênfase devido às sobrancelhas grossas que ornavam o conjunto, cujo ponto alto, não desmerecendo nenhum outro, eram seus lábios. Não gosto de homens de lábios grossos. Digo, prefiro homens de lábios finos, são mais gostosos de beijar, e dão um ar mais másculo. Mas, naquele tempo, eu não sabia que diferença tinha beijar qualquer tipo de homem.