Ficção

Tio Cláudio

08072007494Nasci em uma família de moldes tradicionais, de moral judaico-cristã, que tinha como peculiaridade o fato de ser ausente. Se hoje condenam-me por não visitar pais e tios, creio que isso seja meramente um reflexo de como fui criado.

Fui precoce em muitos aspectos, como aprender a usar e a programar computadores sozinho antes dos 14 anos de idade (na época em que esses aparelhos custavam muitos milhares de dólares, devido à reserva de mercado), ou aprender eletrônica apenas lendo e pesquisando livros e revistas. Mas no que diz respeito a relacionamentos amorosos e sexuais, tive uma iniciação tardia, bem mais tardia do que seria normal em nossa cultura.

Eu tinha 21 anos, e era um jovem deprimido, frustrado, pois sabia que era homossexual, e sentia-me culpado por isso. Mais ainda, sentia-me culpado por não gostar de jovens, e sim de homens maduros, gordos, calvos, enfim, bem distantes do padrão de beleza comercial corrente. Se entre os heterossexuais eu era rechaçado por ser gay, entre os gays eu era rechaçado por gostar de “velhos”.

Preocupada com o que os vizinhos diriam dela, minha mãe resolveu que eu deveria consultar alguém que me curasse. Começou com as mães de santo, cartomantes, benzedeiras. Eu me submetia por absoluta falta de coragem de virar a mesa. Depois de meses de sofrimento, uma delas foi certeira em seu “diagnóstico”, pela primeira vez: “leva esse rapaz num médico, porque ele não tem nada de espiritual, ele tem é depressão”.

Como morávamos no interior, não havia nenhum psiquiatra que pudesse me tratar na cidade, o que demandaria uma viagem à capital. O que, para mim, bicho do mato, medroso, depressivo, era um desafio intransponível. Sabendo disso, meu pai chamou um de meus tios, seu cunhado, para levar-me ao médico, aproveitando que sabia que ele estaria de férias durante alguns dias.

Tio Cláudio tinha na época uns 50 anos. Era solteiro, morava na capital, muito pouco falava com os familiares. Eu mesmo só o havia visto uma vez, no casamento de um primo bem mais velho, que o convidara para padrinho (todo mundo pensava que Tio Cláudio era rico, e tentavam explorá-lo de todas as maneiras). Tio Cláudio compareceu à cerimônia na igreja, e quando procuraram por ele já não havia nem cheiro mais.

sunburntsTio Cláudio não se negou a ajudar-me, a acompanhar-me ao médico. Era uma tarde quente de domingo, e ele apareceu para me buscar. “Arruma-te, guri, já estamos de partida para a capital”, disse-me ele num Português impecável. Somente quando estava já ao seu lado, no carro, pude observá-lo um pouco melhor. Não muito, claro, pois minha timidez não me permitia sequer olhar em seus olhos.

“Tu precisas é de mundo, guri, e não de psiquiatra”, dizia ele enquanto eu olhava para suas coxas fortes, sua barriga saliente, redonda, a camisa aberta, os pêlos em grande quantidade, pretos, mas que no alto do peito já estavam meio grisalhos. “Vou te levar nesse médico porque tua mãe insistiu muito, mas o que tu deves fazer é aproveitar a estada na capital para juntar coragem de soltar essa corja de usurpadores de mão; se tens dinheiro, usurpam-te os bens, se não tens, usurpam-te a alegria, a dignidade”.

No caminho pude perceber que meu tio também era um tanto amargo, cheio de ressentimentos com a família, também sentia-se inadequado ao meio em que nascera. “Não vou te levar pra minha casa, porque, não sei se tu sabes, eu moro com outras pessoas. Por favor não comentes em casa, sei que posso devotar-te confiança”. Eu não entendia como aquele homem conseguia ser tão primoroso ao falar, mas não de maneira pedante ou artificial, a correção simplesmente fluía através dele. “Ao invés, vamos ficar tu e eu hospedados em um hotel no Centro”.

Chegamos ao hotel, e meu tio sugeriu delicadamente um banho: “não que a viagem tenha sido tão longa, mas deves estar necessitado de um banho relaxante. Vai, e não economizes na água, que a diária custa o mesmo valor”. Voltei para o quarto, e foi a vez dele ir para o banheiro. Só então olhei para suas roupas, embora não ousasse tocar em nada. Cheguei a pensar no quão belo era meu tio, mas naturalmente afastei o pensamento o mais rápido que pude.

Acabamos indo dormir cedo, e acho que ambos passamos a maior parte da noite acordados, um não querendo incomodar o outro. Quase que eu caía da cama, de tão na beirada que eu deitei. Levantei cedo, e fui para o banheiro ler. Não iria acender a luz, para não atrapalhar o sono dele.

“Élcio, tua consulta está marcada para quarta-feira, portanto tens hoje e amanhã para conheceres a cidade”, disse-me tio Cláudio. “Confio que não farás nenhuma besteira para deixar-me preocupado. A meu turno, vou dar umas voltas, fazer umas coisas de que preciso.”

Saímos os dois para a rua, Tio Cláudio pagou-me um café, e recomendou-me que não me afastasse muito, mas que se o fizesse que caminhasse sempre em direção ao poente, pois estaria indo para as margens do Guaíba, e de lá seria facílimo de encontrar o Hotel novamente.

Andei um pouco, e encontrei o ambiente em que aconteceria minha primeira experiência sexual: um cinema que passava vídeos pornôs. Hoje eu diria apenas “o cinemão”, mas naquela época, no meu contexto, aquilo era algo inimaginável.

Entrei, acostumei os olhos à pouca luz, e vi que havia gente dos mais diversos tipos por ali. Percebi que algumas pessoas não tinham maiores escrúpulos, e ficavam masturbando-se abertamente. Ousei superar o medo, e sentei ao lado de um senhor que estava com o pênis e o saco para fora das calças. Pela pouca luz que havia dava para imaginar um coroa relativamente bonito. Sentei, tirei minha genitália da calça, e fiquei olhando para ele, que não se fez de rogado, e meteu a mão. “Caralho bonito, que tu tem, guri… Queria levá ele na bunda”. Céus, o que ele estava me dizendo! Estaria eu sonhando?

Inocente, não deixei de dizer a ele que era a primeira vez que alguém tocava meu pênis, que eu era um garoto ingênuo do interior que morria de vergonha de gostar de homens. “Tu qué trepá? Tu já foi na sauna?” Com o coração aos saltos saí do cinema acompanhando aquele senhor. Ele era realmente bonito, calvo, tinha um traseiro redondo e grande, pernas grossas, e se por um lado era muito simples, beirando a ignorância, por outro transmitia-me uma sensação de segurança, que aliada ao meu contido tesão, fazia-me não pensar em mais nada, a não ser nas delícias que encontraria na sauna.

older108Lá chegando, um prédio velho, mas cheio de homens nus, fiquei receoso, e acabei não querendo “brincar” com ninguém que ali estava se oferecendo. Foi quando vi que havia no fim de um corredor escuro uns quartinhos ainda mais escuros, em que ficavam alguns homens que não queriam estar junto aos demais. Entrei num deles, e fui repelido pelos seus dois ocupantes. Entrei no segundo, e não pude ficar porque o cheiro vindo das axilas do sujeito era insuportável. No terceiro quartinho que experimentei senti um cheiro bom, de xampu, e enxerguei pela penumbra um homem grande, meio gordo, deitado na cama. Encostei a porta, deitei-me a seu lado, e recebi uma sessão de carinhos, massagens, beijos no pescoço, no peito, nas costas, como até hoje ninguém repetiu. Por um instante cheguei a pensar que havia algo de familiar em meu parceiro, mas logo afastei o pensamento. Tímido, ousei passar a mão em seu peito, peludo e forte, sua barriga, e indo parar em seu pênis. Acabei por apenas brincar com ele por algum tempo, massagear suas bolas, mas não fui além. O homem também não me forçou a nada.

As horas passaram, lembrei que meu tio poderia ficar preocupado comigo, cochichei um pedido de licença e fui embora. Nem uma ducha não tomei, de medo de chegar depois que Tio Cláudio ao hotel. Quando ele chegou eu estava no chuveiro, e apenas ouvi seu “boa tarde” já meio inadequado.

Eu morria de vergonha de meu tio. Parecia que a qualquer momento ele diria que estava me seguindo, que sabia de todas as baixarias que eu havia aprontado durante o dia. “Aproveitaste bem o dia, meu sobrinho? Que descobertas fizeste?”, perguntou ele o mais docemente que podia. Menti que tinha ido a uma biblioteca, e que havia passado horas grudado nos livros, pelo que fui repreendido, pois livros havia de sobra na minha casa.

Na terça-feira passeei mais pela cidade, resisti à curiosidade e não voltei ao cinema ou à sauna, até porque meu tio estava no hotel, preferira passar o dia curtindo a sala de jogos, e a TV por satélite. Na quarta pela manhã meu tio conversava comigo no escuro, pois ainda estávamos dividindo a cama de casal, orientando-me como eu deveria mentir em casa, quando perguntassem pela consulta. “Não vou te levar a médico nenhum, tu precisas é de oportunidades, não te tratamento. Não deixes que dominem tuas vontades, aproveita a juventude e faze o que tens vontade, não esperes ficar velho pra buscar os teus sonhos”, dizia-me ele. “E hoje, já que é meu último dia fora de casa, vou sair para fazer umas coisas, também, encontramo-nos à noite”.

Confesso que senti uma certa dose de tristeza, pois conviver com meu tio, embora tão calado, tão amargo, era muito melhor do que conviver com minha família. Não entendia muito bem o que ele queria dizer com “viver minha vida”, mas sentia que era um conselho que ele tirava do fundo do coração para mim.

flysopen03Pensei em ir ao cinema, mas como seria possivelmente a última vez na minha vida que eu teria a oportunidade, resolvi ir para a sauna. Fui, e deitei-me em um daqueles quartinhos, o mesmo em que eu encontrara aquele homem dois dias antes. Peguei no sono, e acordei quando havia alguém sentado na beira da caminha. Pelo formato do corpo reconheci que era o mesmo sujeito, e meu coração deu pulos de alegria. “Que bom que você voltou”, cochichei. “Que bom que é você”, cochichou ele de volta. E deu-me um beijo na boca. Senti um bigode sobre meu rosto imberbe, aquela língua áspera invadindo docemente minha boca. Suas mãos percorriam meu corpo, seus braços me apertavam contra o peito forte. Sentei-me na beira da cama, para tentar me situar melhor, e ele sentou-se atrás de mim, o pênis rijo cutucando-me as nádegas, o peito peludo roçando em minhas costas. Abraçou-me, beijava meu pescoço, enfiava a língua em minha orelha, e manipulando meu pênis arrancou-me o primeiro orgasmo não fruto de onanismo em minha vida. Eu tremia de prazer, de emoção, de susto.

Logo após o meu gozo ele se pôs de frente para mim, e suavemente forçou minha cabeça em direção ao falo. Tinha medo de chupar seu pênis, mas tinha vontade. Desajeitado enfiei o que pude na boca, era um pênis grande e grosso. Concentrei-me em sentir na língua as carícias que aquele objeto de prazer fazia, segurava os testículos dele, e quando eu já não esperava que ele fosse gozar, sinto o pênis ser arrancado de minha boca, e num arfar abafado meu parceiro ejaculava. Pude ouvir o ruído dos pingos pesados de sêmen caindo sobre o colchão revestido de napa.

Estava tudo terminado, era hora de eu sair dali. Enquanto tentava sair da cama ele deu um salto em direção à parede: “hoje eu quero ver bem o teu rosto”. A partir daí minha noção de tempo ficou toda alterada. O que durou menos de um segundo levaria horas para ser descrito com alguma precisão. Achei a voz familiar, por início, e fiquei com muito medo. Em seguida disse a mim mesmo que seria impossível. Sentia o peso do corpo arqueando-me os joelhos, o coração batendo forte e descompassado.

A luz acendeu-se e a surpresa que o destino me preparara foi extremamente forte: meu parceiro de iniciação sexual era o Tio Cláudio!

Eu continuava tentando soerguer-me, com o corpo pesando uma tonelada, o olhar surpreso de meu tio, a mente vazia, o coração parado… Não, nada disso, realmente não foi mais do que um ou dois segundos de surpresa. “Plaft!”, foi o ruído que fez a bofetada que ele me deu no rosto, fazendo-me acordar do transe.

“Isso não se faz, Élcio, tu não tinhas o direito de me seguir, e muito menos de te enfiares aqui dentro para fazer isso comigo! O que tu pensas que está ganhando ao agir assim? O que te custa não ser igual ao resto da caterva que te criou?”, dizia ele tomado de ira. Eu não conseguia falar, apenas chorava, e sentia culpa. Meu tio me levantou à força, obrigando-me a olhar em seus olhos enlouquecidos, sacudindo-me, humilhando-me, o que me levou a encontrar forças sei eu onde, para revidar-lhe a bofetada. Mas bati muito mais forte, joguei-o desequilibrado sobre a cama. Ouvi seus soluços, seu pranto, ajoelhei-me a seu lado, e deixei o choro fluir. Pedi desculpas a ele, disse que não sabia o que estava acontecendo, que não esperava que ele pudesse estar ali, e arrisquei um toque em suas costas peludas.

Ficamos um tempo naquela posição, quando ele resolveu quebrar o silêncio. “Élcio, perdoa-me. É claro que tu não sabias que era eu. Não contes à corja, ou prefiro dar cabo à vida a ter de explicar-me…”. Interrompi seu discurso tocando de leve seus lábios com meu dedo. Aproximei-me dele, ensaiei um abraço, e fui prontamente retribuído. Senti novamente o calor do corpo de Tio Cláudio, suas mãos me envolvendo, e com toda a energia da juventude não pude segurar uma ereção. Naturalmente ele percebeu, mas limitou-se a segurar meu pênis. “Tio, eu gostei muito do que aconteceu; eu gosto muito do senhor”, falei com medo. E então senti novamente aquela boca beijando a minha, senti sua mão em meu rosto, fazendo-me lembrar que havia pouco antes levado uma bofetada, pois ardia a região abaixo do olho.

childofgodMeu tio então deitou-me de barriga para cima, e beijou meu corpo todo. Suas mãos passeavam por toda a extensão de minha pele, e quando eu já estava novamente em transe pelo prazer, iniciou um felácio inesquecível. Enquanto me chupava, com um dedo massageava meu esfíncter, fazendo-me delirar. Pela sua movimentação, ajeitando-se sobre a cama, supus que ele quereria que eu retribuísse as carícias orais, e não me enganei. Ele enfiou todo o pênis extremamente duro em minha boca, fazendo-me engasgar. Imitando os movimentos do coito, não demorou muito a expelir uma farta dose de sêmen em minha boca. Não tive pudores, e engoli tudo, e enquanto engolia fazia pressão com a língua na parte de baixo do pênis. Não o deixei sair da posição em que estava, masturbei-me freneticamente, liberando também uma farta dose de sêmen.

Exaustos, dormimos abraçados até o final da tarde, e ao sairmos para onde estava iluminado, assustamo-nos ambos com os hematomas que nos havíamos infligido. De volta ao hotel meu tio contou a história de sua vida, revelou que “as pessoas” que moravam com ele na casa na verdade era apenas uma, um outro senhor com quem mantinha um relacionamento de mais de quatro anos. Contou-me que seu pai, meu avô, quando soube de alguma maneira, de sua homossexualidade, deserdou-o, mandou-o para fora de casa com uma mão na frente e outra atrás. “Não tenho mais raiva dele, pois se ele não tivesse feito isso eu seria apenas mais um naquela caterva, meu sobrinho”, falou com lágrimas nos olhos.

Minha cabeça estava muito confusa com tudo o que estava acontecendo, mas não o suficiente para eu não poder decidir que não voltaria mais para casa. Com a ajuda do meu tio consegui um emprego, e morei por mais dois anos com ele e seu namorado. Jamais voltamos a nos tocar daquela maneira, jamais remexemos no passado. O máximo que houve, foi um fim de semana em que fiquei sozinho em casa com meu tio, pois seu namorado havia ido visitar a mãe moribunda, e dormimos abraçados, na mesma cama.

Morei com eles mais três anos, até que numa fria manhã de agosto o carro em que ambos viajavam foi jogado para fora da estrada, numa encosta de serra, por um caminhão em alta velocidade. Foi fatal para ambos.

E, hoje, devo tudo o que sou, tudo o que tenho, a meu inesquecível Tio Cláudio, esteja onde estiver.

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